Archive for the ‘fabrício corsaletti’ Category

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dezembro 11, 2011

pescoço

impossível não pensar
em modigliani
nas mulheres de modigliani
não nas mulheres
dos quadros de modigliani
mas nas modelos de modigliani
melhor
na primeira mulher
que determinou em modigliani
a necessidade de encontrar modelos
parecidas com essa primeira
mulher inventada
por modigliani

>> estudos para o seu corpo – corsaletti, f. [p.163]

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dezembro 11, 2011

poema de amor

agora o meu amor envolve o seu rosto.
você projeta a cidade de homens livres.
tento aproximá-la do pássaro branco.
você só quer que eu me concentre.
percebo a cidade de homens livres.
começo a existir e a você me dirijo.
meus poemas fazem você nascer mais um pouco.
mas você abandona a cidade de homens livres;
em direção à porta de saída,
seu passo aperfeiçoa o amor.

>> estudos para o seu corpo – corsaletti, f. [p.122]

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dezembro 4, 2011

entrei na sala
onde você trabalha
estava vazia sentei
na sua mesa
vi o sol se pôr
do seu ponto de
vista

>> estudos para o seu corpo – corsaletti, f. [p.94]

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dezembro 4, 2011

escreva sobre sua
paixão por suicidas
sobre os
problemas no seu apartamento
sobre sua infância
como deseja passar a velhice
com quem

>> estudos para o seu corpo – corsaletti, f. [p.93]

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dezembro 4, 2011

e a sensação de que tudo já foi
ou poderia ter sido
de outra maneira

>> estudos para o seu corpo – corsaletti, f. [p.60]

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março 14, 2010

Seu nome

se eu tivesse um bar ele teria o seu nome
se eu tivesse um barco ele teria o seu nome
se eu comprasse uma égua daria a ela o seu nome
minha cadela imaginária tem o seu nome
se eu enlouquecer passarei as tardes repetindo o seu nome
se eu morrer velhinho no suspiro final balbuciarei o seu nome
se eu for assassinado com a boca cheia de sangue gritarei o seu nome

se encontrarem meu corpo boiando no mar no meu bolso haverá um bilhete [com o seu nome
se eu me suicidar ao puxar o gatilho pensarei no seu nome
a primeira garota que beijei tinha o seu nome
na sétima série eu tinha duas amigas com o seu nome
antes de você tive três namoradas com o seu nome
na rua há mulheres que parecem ter o seu nome
na locadora que frequento tem uma moça com o seu nome
às vezes as nuvens quase formam o seu nome
olhando as estrelas é sempre possível desenhar o seu nome
o último verso do famoso poema de Éluard poderia muito bem ser o seu [nome
Apollinaire escreveu poemas a Lou porque na loucura da guerra não conseguia lembrar o seu nome
não entendo por que Chico Buarque não compôs uma música para o seu [nome
se eu fosse um travesti usaria o seu nome
se um dia eu mudar de sexo adotarei o seu nome

minha mãe me contou que se eu tivesse nascido menina teria o seu nome
se eu tiver uma filha ela terá o seu nome
minha senha do e-mail já foi o seu nome
minha senha do banco é uma variação do seu nome
tenho pena dos seus filhos porque em geral dizem “mãe” em vez do seu [nome
tenho pena dos seus pais porque em geral dizem “filha” em vez do seu nome
tenho muita pena dos seus ex-maridos porque associam o termo ex-mulher [ao seu nome
tenho inveja do oficial de registro que datilografou pela primeira vez o seu [nome
quando fico bêbado falo muito o seu nome
quando estou sóbrio me controlo para não falar demais o seu nome
é difícil falar de você sem mencionar o seu nome
uma vez sonhei que tudo no mundo tinha o seu nome
coelho tinha o seu nome
xícara tinha o seu nome
teleférico tinha o seu nome
no índice onomástico da minha biografia haverá milhares de ocorrências do [seu nome
na foto de Korda para onde olha o Che senão para o infinito do seu nome?
algumas professoras da USP seriam menos amargas se tivessem o seu nome
detesto trabalho porque me impede de me concentrar no seu nome
cabala é uma palavra linda mas não chega aos pés do seu nome

no cabo da minha bengala gravarei o seu nome
não posso ser niilista enquanto existir o seu nome
não posso ser anarquista se isso implicar a degradação do seu nome
não posso ser comunista se tiver que compartilhar o seu nome
não posso ser fascista se não quero impor a outros o seu nome
não posso ser capitalista se não desejo nada além do seu nome
quando saí da casa dos meus pais fui atrás do seu nome
morei três anos num bairro que tinha o seu nome
espero nunca deixar de te amar para não esquecer o seu nome
espero que você nunca me deixe para eu não ser obrigado a esquecer o seu [nome
espero nunca te odiar para não ter que odiar o seu nome
espero que você nunca me odeie para eu não ficar arrasado ao ouvir o seu [nome
a literatura não me interessa tanto quanto o seu nome
quando a poesia é boa é como o seu nome
quando a poesia é ruim tem algo do seu nome
estou cansado da vida mas isso não tem nada a ver com o seu nome
estou escrevendo o quinquagésimo oitavo verso sobre o seu nome
talvez eu não seja um poeta à altura do seu nome
por via das dúvidas vou acabar o poema sem dizer explicitamente o seu [nome

>> esquimó – corsaletti, f. [p.74 a 76]

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março 14, 2010

Plano

esperar Eva Green vir a São Paulo
por acaso conhecer Eva Green
convidar Eva Green para uma feijoada
beber com Eva Green cerveja e Salinas
ensinar Eva Green a sambar
no fim do dia ver com Eva Green o sol se pôr na praça do Pôr do Sol
se Eva Green for maconheira é melhor ter um baseado no bolso
falar de Rimbaud com Eva Green
mas Eva Green tem cara de quem prefere Baudelaire
traduzir Bandeira para Eva Green
Tom Jobim para Eva Green
Bocage para Eva Green
em hipótese alguma ler os poemas que escrevi sobre Eva Green
tomar um drinque no Terraço Itália com Eva Green
visitar Betito e Gô com Eva Green
não ir com Eva Green ao La Tartine
a não ser que Eva Green esteja muito nostálgica
ir ao cinema com Eva Green?
à praça Roosevelt com Eva Green?
sei que Eva Green não gosta de boate
apresentar a Eva Green uma boa padaria
amanhecer na Paulista com Eva Greeen
roubar um carro conversível
e descer para Santos com Eva Green
dormir num hotel barato mas limpinho com Eva Green
fazer amor com Eva Green
levantar tarde e comprar um biquíni
e protetor solar para Eva Green
comer mariscos com Eva Green e beber mais cerveja
em algum quiosque da beira da praia
quando Eva Green disser “vou dar um mergulho e já volto”
depressa avisar Eva Green que a água está poluída
consolar Eva Green por esse triste fato
prometer levar Eva Green a Picinguaba
onde o mar é verde como os olhos de Eva Green
agora sim mostrar para Eva Green os poemas que fiz para Eva Green
depois voltar ao hotel com Eva Green
massagear os pés de Eva Green
e deixar que Eva Green durma tranquila
então abrir a janela e tomar uma dose de uísque
olhando as estrelas e relembrando a infância
e sentir a maresia invadir o quarto e a cama
onde Eva Green dorme de lado com minha camiseta
e esfrega um pé no outro enquanto sonha

>> esquimó – corsaletti, f. [p.72 e 73]