(…)
olhar, reparar tudo em volta, sem a menor intenção de poesia.
girar os braços, respirar o ar fresco, lembrar dos parentes.
lembrar da casa da gente, das irmãs, dos irmãos e dos pais da gente.
lembrar que eles estão longe e ter saudades deles…
lembrar da cidade onde se nasceu, com inocência, e rir sozinho.
rir de coisas passadas. ter saudade da pureza.
lembrar de músicas, de bailes, de namoradas que a gente já teve.
lembrar de lugares que a gente já andou e de coisas que a gente já viu.
(…)
sentir o sol. gostar de ver as coisas todas.
gostar de estar ali caminhando. gostar de estar assim esquecido.
gostar desse momento. gostar dessa emoção tão cheia de riquezas íntimas.
pensar nos livros que a gente já leu, nas alegrias dos livros lidos.
(…)
ter vontade de escrever para todos os amigos.
ter vontade de lhes contar a vida até o momento presente.
pensar em encontrá-los de novo. pensar em reuni-los em torno de uma mesa,
uma mesa qualquer, em um lugar que a gente ainda não escolheu.
conversar com todos eles. rir, cantar, recordar os dias idos.
dar uma olhadela na infância de cada um. aquele era magro, venício…
aquele outro era gordo, abelardo… aquele outro era triste.
ai, não esquecer jamais este último, porque era um menino triste.
(…)
como é bom a gente ter deixado a pequena terra em que nasceu
e ter fugido para uma cidade maior, para conhecer outras vidas.
como é bom chegar a este ponto de olhar em torno
e se sentir maior e mais orgulhoso porque já conhece outras vidas…
(…)
>> poesia completa – barros, manoel de [p.59 a 62]