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janeiro 28, 2015

…e, se um homem pode dormir salgado de mar e pela manhã se descobrir guardador de rebanho, e se um outro acordou inseto na mente de um escritor, e se dos dedos de uma pintora floresceu um abaporu, e se numa tela móvel irromperam formigas e um cão andaluz, e se campos e ramos e rosas pariram territórios imaginários, tu podes amanhecer tristeza, entardecer esperança e anoitecer sol, tu podes, bia, podes tocar, não com o pensamento, mas com o teu sentir, o que vibra entre as minhas palavras, e recolher, como roupas no varal, os significados dependurados em suas entrelinhas…

>> caderno de um ausente – carrascoza, j. a. [p.79/80]

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abril 5, 2012

(…)

olhar, reparar tudo em volta, sem a menor intenção de poesia.
girar os braços, respirar o ar fresco, lembrar dos parentes.
lembrar da casa da gente, das irmãs, dos irmãos e dos pais da gente.
lembrar que eles estão longe e ter saudades deles…

lembrar da cidade onde se nasceu, com inocência, e rir sozinho.
rir de coisas passadas. ter saudade da pureza.
lembrar de músicas, de bailes, de namoradas que a gente já teve.
lembrar de lugares que a gente já andou e de coisas que a gente já viu.

(…)

sentir o sol. gostar de ver as coisas todas.
gostar de estar ali caminhando. gostar de estar assim esquecido.
gostar desse momento. gostar dessa emoção tão cheia de riquezas íntimas.
pensar nos livros que a gente já leu, nas alegrias dos livros lidos.

(…)

ter vontade de escrever para todos os amigos.
ter vontade de lhes contar a vida até o momento presente.
pensar em encontrá-los de novo. pensar em reuni-los em torno de uma mesa,
uma mesa qualquer, em um lugar que a gente ainda não escolheu.

conversar com todos eles. rir, cantar, recordar os dias idos.
dar uma olhadela na infância de cada um. aquele era magro, venício…
aquele outro era gordo, abelardo… aquele outro era triste.
ai, não esquecer jamais este último, porque era um menino triste.

(…)

como é bom a gente ter deixado a pequena terra em que nasceu
e ter fugido para uma cidade maior, para conhecer outras vidas.
como é bom chegar a este ponto de olhar em torno
e se sentir maior e mais orgulhoso porque já conhece outras vidas…

(…)

>> poesia completa – barros, manoel de [p.59 a 62]

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abril 2, 2012

enquanto uns discutiam,
outros iam tratar da vida
isto é: iam jogar peteca.

>> poesia completa – barros, manoel de [p.46]

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março 31, 2012

não contar nada a ninguém.
não tentar um poema.
nem olhar o nome na placa.
esquecer.
invisível, deixar apenas que a emoção perdure (…)

>> poesia completa – barros, manoel de [p.42]

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março 31, 2012

os muros enflorados caminhavam ao lado de um homem solitário
que olhava fixo para certa música estranha
que um menino extraía do coração de um sapo.

(…)

seu corpo fazia uma curva diante das flores.

>> poesia completa – barros, manoel de [p.38/39]

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março 31, 2012

katy dançava de cabelos soltos no jardim
e eu compunha músicas singelas para seu corpo.

>> poesia completa – barros, manoel de [p.38]

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março 28, 2012

eu queria que as garças me sonhassem. eu queria que as palavras me gorjeassem.

>> poesia completa – barros, manoel de [p.7]