
Outubro 25, 2009
certa vez, no drive-in, sueli desenhou seus nomes no para-brisa embaçado pelo suor da trepada. dias depois, miguel, rebeca, sua mulher, e ivan, seu menino, estavam presos no trânsito. o calor dos corpos embaçou o vidro, revelando um enorme coração flechado.
sueli e miguel.
foi o fim do casamento.
>> miguel e os demônios – mutarelli, l. [p.13]
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Outubro 25, 2009
miguel fazia as unhas no salão em que sueli trabalha. sentia uma atração incontrolável por ela. mas não conseguia exteriorizar seus sentimentos. faltava coragem. miguel é tímido. miguel nunca se sente confortável. para miguel o mundo é como uma festa para qual ele não foi convidado. entrou pelos fundos.
>> miguel e os demônios – mutarelli, l. [p.12]
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Outubro 25, 2009
sueli tem os cabelos armados, encaracolados, pintados. já foi ruiva, morena, loira. atualmente a cor é essa mistura, camada sobre camada. híbrida. os cabelos são emaranhados de forma antinatural. lembram uma porção de miojo lámen. miguel é quase um expert em miojo. consegue identificar na tintura os temperos de galinha caipira, carne e bacon.
>> miguel e os demônios – mutarelli, l. [p.10]
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Outubro 25, 2009
ela se instala em meu ombro
e dorme
o sono
dos impuros.
sinto
um enorme impulso
de apertar sua garganta,
de calar sua voz.
de enterrar minha descoberta.
de fazê-la
morrer
olhando
nos meus olhos
para nunca
me esquecer.
me imortalizar
em sua passagem.
mas acabo
dormindo
em seu conforto.
aquecido
pelo calor de seu corpo.
embriagado
por seu hálito.
desmentindo
minha determinação.
escravo
da vontade.
>> o natimorto – mutarelli, l. [p.93]
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Outubro 25, 2009
quanto mais eu me protejo,
mais eu me firo.
quanto maior a doçura,
mais forte é o enjoo.
>> o natimorto – mutarelli, l. [p.84]
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Outubro 25, 2009
a voz — você era mais doce quando era um estranho.
o agente — a recíproca é verdadeira.
a voz — a recíproca nunca é verdadeira. cada um dá em troca o que tem. isso não implica igualdade.
>> o natimorto – mutarelli, l. [p.58]
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Outubro 25, 2009
a voz — vou tomar um banho.
o agente — não, não se deve tomar banho logo após as refeições.
a voz — você realmente acredita nisso?
o agente — é sério. minha tia, a cartomante, dizia que um amigo fez isso e sua boca entortou.
a voz — ha, ha, ha, ha… entortou?
o agente — é verdade. sabe que, na época, eu ficava imaginando a cara dele, assim, com a boca colada à orelha. eu pensava nos segredos que ele mesmo se contava.
>> o natimorto – mutarelli, l. [p.36]
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Outubro 25, 2009
as palavras não saem de minha boca.
eu as encontro,
as dirijo até ela,
mas minha boca
as engole.
>> o natimorto – mutarelli, l. [p.24]
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Outubro 25, 2009
me falta vontade para ir.
me falta coragem para voltar.
>> o natimorto – mutarelli, l. [p.22]
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Outubro 25, 2009
ela riu.
e continuou rindo.
e seu riso me contaminou.
e eu ri também.
transformamos nosso desconforto numa gargalhada incontida.
cúmplices.
eu queria abraçá-la.
porque eu me sinto tão sozinho.
tão sozinho, que às vezes dói.
>> o natimorto – mutarelli, l. [p.20/21]
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