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Novembro 21, 2009

nunca o vi tão empolgado para mostrar um trabalho como naquela noite. conversou um pouco e foi logo dizendo:
— meu irmão, fiz essa homenagem para uma pessoa e tomara que ela goste. bota a fita logo que eu tô doido para você ouvir.
apertei o play e imediatamente os metais da introdução ecoaram pelo apartamento, surpreendendo meus ouvidos, com uma alegria que me induzia a balançar o corpo. começou então:

você meu amigo de fé, meu irmão camarada
amigo de tantos caminhos e tantas jornadas
cabeça de homem mas o coração de menino
aquele que está do meu lado em qualquer caminhada

talvez por distração minha, ao ouvir os primeiros versos nem me passou pela cabeça que o amigo cantado na música fosse eu. continuei ouvindo e me emocionando aos poucos com a descrição profunda de uma amizade verdadeira:

me lembro de todas as lutas, meu bom companheiro
você tantas vezes provou que é um grande guerreiro
o seu coração é uma casa de portas abertas
amigo você é o mais certo das horas incertas

às vezes em certos momentos difíceis da vida
em que precisamos de alguém pra ajudar na saída
a sua palavra de força, de fé e de carinho
me dá a certeza de que eu nunca estive sozinho

você meu amigo de fé, meu irmão camarada
sorriso e abraço festivo da minha chegada
você que me diz as verdades com frases abertas
amigo você é o mais certo das horas incertas

as palavras me tocavam cada vez mais fundo e eu pensava: “era exatamente isso que eu gostaria de dizer para ele. esse épico é a história de grandes amigos. é a nossa história, igualzinha em todos os sentidos.”
e deduzi: “se não está falando do pai dele, seu robertino, só pode estar falando de mim.”
não tive mais dúvidas, o amigo da música era eu. narinha carinhosamente veio me dar um beijo. olhei para roberto e vi uma expressão cativante de felicidade em seu rosto. ele aproveitara uma daquelas melodias do baú e me presenteava com uma demonstração comovente de fraternidade. minhas lágrimas vieram com uma abundância de fazer inveja ao mar de ipanema. nos abraçamos demoradamente enquanto a música prosseguia:

não preciso nem dizer
tudo isso que eu lhe digo
mas é muito bom saber
que você é meu amigo

não preciso nem dizer
tudo isso que eu lhe digo
mas é muito bom saber
que eu tenho um grande amigo…

>> minha fama de mau – carlos, e. [p.143/144]

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Novembro 7, 2009

fiquei na minha mesinha, cada vez mais maravilhado com as mulheres que passavam para lá e para cá, dançavam e mexiam comigo. também fiquei empolgado com as bossas que o conjunto tocava, e logo as identificava por ouvir no rádio. de repente, comecei a ouvir:

o meu coração obedece a uma voz
maria meu bem, e o samba também

meu coração palpitava forte. roberto estava cantando minha música.

a coisa melhor desse mundo
é ouvir um samba com inspiração
ao compasso do meu coração

minhas lágrimas pingavam no copo de cuba libre, enquanto roberto continuava:

se faltasse o samba
maria de nada valeria
mas se faltasse maria
eu não teria vontade
alguma de escutar
meu samba sem poder amar

alguns aplausos e roberto então anunciou:
— essa música que vocês ouviram é de um compositor da tijuca, meu amigo erasmo — eu ainda não tinha carlos no nome.
e apontou para mim. os aplusos ficaram ligeiramente mais fortes. alguém falou:
— levanta, levanta!
mas não tive coragem. estar feliz me bastava.

>> minha fama de mau – carlos, e. [p.105/108]

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Novembro 7, 2009

da pequena cabine do trem, me lembro da cama beliche. é óbvio que dormi na parte de cima. lembro também que [carlos] imperial não acreditou quando viu a “originalidade” da minha bagagem de mão, carinhosamente arrumada por minha mãe. dona diva organizava tudo em vários vidrinhos usados de remédios, cada um deles com uma tirinha de esparadrapo, na qual ela escrevia indicando o conteúdo: pasta de dente, creme de barbear, algodão, leite de colônia, brilhantina e até graxa de sapatos. ele ficou tão impressionado com aquela simplória e bela demonstração de zelo familiar, que elogiaria eternamente o amor e carinho existentes na minha criação. como no trecho de seu livro ‘memórias de um cafajeste’, publicado em 1973:

“eu estava surpreso. era difícil, hoje em dia, encontrar um rapaz macho com tanta preocupação familiar, ouvindo tanto a mãe. isso demonstrava ser o erasmo realmente aquilo que roberto carlos me dissera: um ótimo sujeito, direito, muito bem educado. vi que teria de agir com muito cuidado com ele.”


>> minha fama de mau – carlos, e. [p.90]

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Novembro 7, 2009

quem é do signo de gêmeos, como eu, é um duplo, sendo perfeitamente natural que um lado de mim tenha ficado chapado quando ouviu ‘rock around the clock’, com bill halley, enquanto o outro… ah, o outro… sentiu um cataclisma interior ao escutar ‘chega de saudade’, com joão gilberto. foi um deslumbramento só. provocou uma reação que eu nunca sentira antes, uma mistura de ternura com felicidade, uma vontade de entrar rádio adentro e fazer parte daquele som que parecia falar diretamente comigo. ao mesmo tempo, era o que eu queria ser para qualquer namorada: simples, poético, harmônico, carinhoso, triste e alegre.

>> minha fama de mau – carlos, e. [p.65]

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Novembro 3, 2009

a primeira vez que fui ao maracanã, levado por seu ângelo, meu vizinho na vila matoso, foi um impacto. fiquei maravilhado ao constatar que o gramado era verde, a camisa do bangu, branca com listas vermelhas e a da portuguesa de desportos, verde e vermelha — acostumado a ver os jogos pela televisão em preto e branco, também na casa do seu ângelo, jamais imaginei que ao vivo fosse tudo colorido.

>> minha fama de mau – carlos, e. [p.29]

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Outubro 25, 2009

papai noel entra na sala.
papai miguel.
as meninas, frenéticas, rasgam os pacotes. em segundos a barbie, recém-aberta, perde um braço. confirmando a origem paraguaia de ascendência chinesa.

>> miguel e os demônios – mutarelli, l. [p.33]

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Outubro 25, 2009

sépia.
o menino cutucava com um graveto o cão morto. os olhos do cão estão abertos.
como se pode morrer de olhos abertos? o menino não entende. agora o menino toca o cão com a ponta do dedo. o cão é frio. era a vida que fazia o cachorro quente. o menino percebe o trocadilho e ri. não do cachorro. nem da morte, mas da vida.

>> miguel e os demônios – mutarelli, l. [p.23]

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Outubro 25, 2009

certa vez, no drive-in, sueli desenhou seus nomes no para-brisa embaçado pelo suor da trepada. dias depois, miguel, rebeca, sua mulher, e ivan, seu menino, estavam presos no trânsito. o calor dos corpos embaçou o vidro, revelando um enorme coração flechado.
sueli e miguel.
foi o fim do casamento.

>> miguel e os demônios – mutarelli, l. [p.13]

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Outubro 25, 2009

miguel fazia as unhas no salão em que sueli trabalha. sentia uma atração incontrolável por ela. mas não conseguia exteriorizar seus sentimentos. faltava coragem. miguel é tímido. miguel nunca se sente confortável. para miguel o mundo é como uma festa para qual ele não foi convidado. entrou pelos fundos.

>> miguel e os demônios – mutarelli, l. [p.12]

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Outubro 25, 2009

sueli tem os cabelos armados, encaracolados, pintados. já foi ruiva, morena, loira. atualmente a cor é essa mistura, camada sobre camada. híbrida. os cabelos são emaranhados de forma antinatural. lembram uma porção de miojo lámen. miguel é quase um expert em miojo. consegue identificar na tintura os temperos de galinha caipira, carne e bacon.

>> miguel e os demônios – mutarelli, l. [p.10]